Sim, esse é mais um texto sobre assédio

Há um tempo venho ensaiando escrever sobre esse tema e tenho adiado por pensar que todo mundo já sabe o que vou dizer. Mas pelo visto não. Vivemos na nossa bolha da conscientização e achamos que, assim como nós, todos já enxergam o mundo de modo diferente.

Tá, não é pra tanto. Mas de cá do meu nicho politizado ainda me choco em perceber como tantas pessoas estão absurdamente distantes de entenderem como o mundo mudou. Em todos os sentidos. Certo dia, pela enésima vez, fui assediada ao sair para trabalhar. Vestindo uma roupa formal, sem decotes, sem transparência, sem pedir, sem insinuar, sem nenhuma dessas desculpas comumente utilizadas por gente que ainda ousa falar esse tipo de besteira. Assediada por um senhor que poderia ser até meu avô. Senti nojo, raiva, vontade de responder e nada fiz. Como sempre.

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Outras tantas vezes fui assediada por homens de variadas idades e nada disse pelo puro e simples medo. Outro dia, ouvi gracinhas de meninos vivenciando o início da puberdade. Pessimista talvez, mas são esses mesmos meninos que virarão os assediadores de amanhã.

Pior do que tudo isso são os casos que já ouvi de homens que, pautados na sua posição de poder no trabalho, assediam funcionárias, forçam situações e as deixam desconfortáveis, ignorando por completo a clara rejeição delas. Tudo isso ostentando uma bela aliança no dedo da mão esquerda, porque se os limites morais da mulher são bem estreitos, os do homem não existem.

E se você pensa que os homens ficam com medo de serem pegos em flagrante, pare agora de ser tão inocente. São as mulheres que ficam desesperadas para a todo custo ocultar a história do assédio com medo de que pensem ter sido tudo consentido. Não falo aqui de envolvimento físico real, mas apenas a possibilidade de que alguém ache que a mulher estava dando bola para as investidas reiteradas do cara que estava na verdade forçando a barra por ser o chefe. Isso porque se alguém souber da história toda, a culpada obviamente será a moça que insinuou, pediu, clamou, deu espaço para ser assediada.

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Sim, esse é mais um texto sobre assédio. Eu sei que talvez você não aguente mais ouvir falar desse tema. Sei também que se você é mulher não aguenta mais sofrer com isso ou no mínimo ouvir mais casos sobre. Então ao que parece teremos que falar de novo, de novo e de novo até que um dia discutir isso seja tão inconcebível e desnecessário quanto se perguntar se a Terra é redonda. Até lá, seguiremos escrevendo.

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